Como e quando delegar

Delegar é o ato de confiar uma tarefa e/ou uma responsabilidade a alguém, normalmente com menos senioridade do que a pessoa que está executando o ato de delegar. A liderança é um ato contínuo de delegação de tarefas e de responsabilidades. Parece um ato bastante simples mas tem vários aspectos importantes a serem considerados para aumentar as chances de sucesso.

Jurgen Appelo, autor do já mencionado livro Management 3.0: Leading Agile Developers, Developing Agile Leaders, comenta que delegar não é uma decisão binária em que você delega ou não delega. Existem outros níveis de delegação entre esses dois extremos e cada um desses outros níveis deve ser usado dependendo do contexto, ou seja, do problema a ser resolvido e de quem vai trabalhar nele. Segundo ele, são sete níveis:

  • Dizer: você toma decisões e as anuncia ao seu time. Na verdade, isso não é delegação. (=
  • Vender: você toma decisões, mas tenta “vender” sua ideia para sua equipe.
  • Consultar: você convida seu time para comentar e pondera suas contribuições.
  • Concordar: você convida seu time a participar de uma discussão e a chegar a um consenso como um grupo. Sua voz é igual às outras.
  • Aconselhar: você tenta influenciar o seu time dando-lhes conselhos, mas deixa que eles decidam o que fazer com sua opinião.
  • Perguntar: você deixa o time decidir. E depois você pergunta sobre suas motivações, ou pede que eles o mantenham ativamente informado.
  • Delegar: você deixa inteiramente para o time lidar com o assunto, e você nem mesmo precisa saber quais decisões eles tomam.

Confesso que no meu dia a dia não penso sobre que tipo de delegação estou fazendo em cada situação, é algo mais intuitivo do que pensado, mas é bom conhecer e relembrar essas diferentes formas de delegação. Tenho a impressão que entre “dizer” e “delegar” há mais do que 5 opções. Navegamos entre essas opções de forma fluida de acordo com a senioridade do time, a experiência específica do time com o assunto em questão e o quanto o tema em questão implica em riscos.

O conceito de delegação anda de mãos dadas com o conceito de microgestão:

Microgestão

Microgestão é o estilo de gestão em que o gerente observa ou controla de perto o trabalho de seus subordinados ou funcionários. A microgestão geralmente possui uma conotação negativa.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Microger%C3%AAncia

A microgestão mostra a incapacidade de delegação do líder. Normalmente há duas razões para um líder microgerenciar seu time:

  • Insegurança: o líder é inseguro, preocupado em fazer tudo certo, por isso ele quer acompanhar cada detalhe de tudo o que está sendo feito. Em alguns (muitos) casos, esse líder fará o trabalho de uma pessoa de seu time para garantir que esteja sendo feito “do jeito certo”. Esse tipo de líder costuma criar muitas regras e procedimentos para garantir que as coisas estejam sendo feitas do jeito que ele entende como certo.
  • Personalidade: é da personalidade do líder ter prazer em ver as pessoas sofrendo sob pressão. Esse líder tende a ser abusivo no dia a dia com a equipe. Ele não fará o trabalho de ninguém, mas acompanhará de perto todos os detalhes para vê-los desconfortáveis sob esse constante escrutínio.

O mais comum é encontrar líderes com insegurança, normalmente pessoas que estão liderando pela primeira vez, mas que eventualmente acabam entendendo seu papel e exercendo a delegação. Já líderes que microgerenciam devido à sua personalidade são mais raros e dificilmente vão mudar.

Pessoas que estão em um time que está sendo microgerenciado tendem a rapidamente se desengajar. Uma vez que estão fazendo as coisas do jeito do gestor, não se sentem responsáveis pelo resultado obtido, seja o resultado bom ou ruim. Se o resultado for bom, o líder provavelmente vai atribuir o sucesso ao seu jeito de fazer as coisas. Se der errado, a pessoa que fez o trabalho não se sentirá responsável, pois “apenas seguiu ordens”.

Maneiras de fazer

Uma das maiores barreiras para a delegação é a certeza que o líder tem de que seu jeito de fazer as coisas é o correto. Quando ele era um contribuidor individual ele fazia as coisas desse jeito e o resultado vinha. Tanto é que ele foi promovido a gestor por fazer as coisas daquele jeito. Então, o que ele entende que tem que fazer como gestor é garantir que todas as pessoas do seu time façam as coisas do jeito que ele faz. Nesse momento a necessidade de microgestão desse líder aparece.

Um líder deve sempre se focar no resultado esperado. A forma como esse resultado é atingido é menos importante do que obter o resultado. Se uma pessoa de sua equipe faz as coisas de forma diferente do que você costuma fazer, isso não significa que a forma como ela faz está errada (claro, desde que não seja uma forma ilícita e não prejudique as pessoas). É só uma forma diferente de fazer as coisas. Talvez até uma forma mais eficiente. O líder precisa respeitar essa diversidade de maneiras de se fazer as coisas e apenas apresentar a sua forma de fazer quando notar que a pessoa não está conseguindo evoluir sozinha.

Oportunidade de aprendizado

Toda vez que delegamos algo para alguém fazer, caso seja a primeira vez que aquela pessoa está fazendo, será uma oportunidade de aprendizado. Por esse motivo, é muito provável que a pessoa cometa alguns erros e aqui entra um dos trade-offs mais difíceis de um líder. Quanto de erro é aceitável? Isso depende muito de cada situação, cabe ao líder entender se os erros são aceitáveis para permitir o aprendizado, ou se dada a criticidade do trabalho a ser feito, erros devem ser minimizados. Devemos sempre criar um ambiente propício ao aprendizado a partir dos erros, pois esse será o aprendizado mais eficaz. É o que busco fazer com os times que lidero.

Resumindo

  • Delegar é o ato de confiar uma tarefa e/ou uma responsabilidade a alguém. A liderança é um ato contínuo de delegação de tarefas e de responsabilidades.
  • Entre não delegar e delegar existem vários níveis de delegação que são usados de acordo com o contexto, ou seja, do problema a ser resolvido e quem estará trabalhando no problema.
  • O conceito de delegação anda de mãos dados com o conceito de microgestão, estilo de gestão em que o gerente observa ou controla de perto o trabalho de seus subordinados ou funcionários.
  • Existem diferentes maneiras de se fazer as coisas para se atingir o mesmo resultado. Líderes novos costumam achar que só o seu jeito de fazer é o certo.
  • Erros são oportunidades incríveis de aprendizado. Daí a importância em tolerar erros no trabalho.

Pronto, com este capítulo concluímos a parte sobre meus princípios pessoais de liderança (pessoas: a prioridade nº 1, sempre; liderar é como ser um médico; liderando sob pressão; mentoria é uma via de mão dupla; e como e quando delegar). Nos próximos capítulos, veremos o que é cultura e quais são os valores que acredito serem obrigatórios para criar produtos digitais de sucesso.

Liderança de produtos digitais

Este artigo faz parte do meu mais novo livro, Liderança de produtos digitais: A ciência e a arte da gestão de times de produto, onde falo sobre conceitos, princípios e ferramentas que podem ser úteis para quem é head de produto, para quem quer ser, para quem é liderado por ou para quem tem uma pessoa nesse papel na empresa. Você também pode se interessar pelos meus outros dois livros:

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