
Este artigo faz parte da série Erros de Organização de Times, que vai explorar os padrões mais comuns de disfunção em organizações de produto, e o que fazer a respeito.
Recebi uma mensagem no WhatsApp de uma pessoa que estava buscando uma Diretora de Engenharia para uma fintech. O perfil era interessante: empresa em fase de crescimento, com forte protagonismo de tecnologia, e foco em aquisição de novos clientes. Perguntei sobre o time. Ela me respondeu: “São cerca de 15 pessoas divididas em 3 times para atender Marketing, Vendas e Novos Negócios.”
A palavra “atender”, junto com essa dedicação de times por área interna, revela muito sobre como a empresa enxerga seu time de tecnologia. Não é um time de produto. É um time de serviço interno. Cada time com foco em servir uma área da empresa.
Esse modelo é mais comum do que parece. A empresa cresce, as áreas internas começam a demandar mais tecnologia, e a solução natural parece ser criar times dedicados a cada área: um time para o financeiro, um para o suporte, um para marketing, um para vendas. Cada área tem “o seu” time.
À primeira vista, parece organizado. As áreas internas ficam satisfeitas porque têm capacidade dedicada. A liderança consegue responder “qual time cuida disso?” para qualquer demanda. O roadmap fica claro: cada time tem seu backlog e cada stakeholder sabe a quem recorrer.
O problema é que esse modelo otimiza para a satisfação dos stakeholders internos, e não para os resultados do produto e do negócio.
Quando um time existe para “atender” uma área interna, a dinâmica de trabalho muda de forma fundamental.
O time de tecnologia focado no marketing recebe demandas do time de marketing. O time de tecnologia focado em vendas recebe demandas do time de vendas. A priorização é feita pela área interna, com base nas suas necessidades do momento. O time implementa o que foi solicitado. Entrega o que foi solicitado. É avaliado pela capacidade de atender às demandas.
Essa forma de operar é o que eu chamo de time de funcionalidades ou de projeto. O stakeholder define o que fazer e o time implementa. Não há autonomia para o time decidir o que vai gerar mais resultado. Não há responsabilidade pelo outcome, só pelo output.
O time de produto, por outro lado, recebe um problema para resolver e um resultado para gerar. Ele tem autonomia para decidir como resolver esse problema. E é responsável não só por entregar algo, mas por gerar resultado a partir de suas entregas, tanto para a empresa quanto para a cliente.
Quando a “cliente” é uma área interna, essa responsabilidade por resultado some. O time de tecnologia entregou a funcionalidade que o marketing pediu? Ótimo, missão cumprida. Se a funcionalidade não gerou resultado nenhum, a culpa é do marketing, que pediu a coisa errada.
Um exemplo concreto do que isso gera na prática: na Lopes, um dos grandes objetivos da diretoria comercial era crescer o número de corretoras associadas. Como corretores são autônomos e podem se desvincular de uma imobiliária a qualquer momento, a área comercial pediu que os leads, que são pessoas interessadas em comprar ou alugar um imóvel, fossem distribuídos de forma sequencial entre as corretoras. Assim, nenhuma ficaria sem receber leads, o que ajudaria a retê-las. Só que essa solução era ruim tanto para a cliente quanto para a empresa. O objetivo final não é distribuir leads de forma justa entre corretoras, é ajudar a cliente a encontrar o melhor imóvel. E para isso, o mais indicado é entregar o lead não para a próxima corretora da lista, mas para a corretora com mais condições de fechar aquela venda específica. Um time de produto teria questionado o pedido e buscado a solução que gerava o melhor resultado para a cliente e para a empresa. Um time focado em atender uma área interna entrega o que foi solicitado.
Em times organizados por área interna, a priorização tende a seguir o que chamo de técnica HiPPO: Highest Paid Person’s Opinion (a opinião de quem tem o maior salário).
A VP de Marketing decide o que o time de tecnologia de Marketing vai fazer. A Head de Vendas decide o que o time de tecnologia de Vendas vai fazer. Não há um processo de priorização baseado em evidências sobre o que vai gerar mais resultado para o negócio. Há uma negociação política entre áreas, onde quem tem mais influência consegue mais capacidade do time de tecnologia.
O resultado prático: o time de tecnologia trabalha muito, entrega várias features, mas gera pouco resultado real. Porque o critério de priorização não é “o que vai gerar mais resultado?” mas sim “o que a área interna mais influente quer agora?”
Voltando ao exemplo da pessoa que me pediu indicação de uma Diretora de Engenharia que vai liderar um time organizado em times focados em áreas internas. Essa diretora vai passar boa parte do seu tempo gerenciando expectativas de stakeholders internos e negociando capacidade entre áreas. Vai ter pouco espaço para construir um time focado em resultados de produto.
O problema não é a Diretora. O problema é a estrutura.
Se a fintech está em fase de crescimento com foco em aquisição de clientes, faz muito mais sentido organizar os times em torno de objetivos de produto, como aquisição, ativação, retenção, do que em torno de áreas internas. Um squad focado em aumentar a taxa de conversão de novos clientes tem um objetivo claro, mensurável, diretamente ligado ao resultado do negócio. Um squad que “atende Marketing” tem uma lista de tarefas.
Algumas perguntas que ajudam a identificar se sua organização caiu nesse padrão:
Se a resposta para a maioria dessas perguntas for sim, você provavelmente tem times de funcionalidade disfarçados de times de produto.
Antes de continuar, preciso fazer uma distinção importante: o problema não é ter times cujo foco são as necessidades de outras áreas da empresa. O problema é como esses times operam.
Ao longo da minha carreira, trabalhei com times com foco nas necessidades internas assim em vários lugares. Na Locaweb e na Lopes, chamávamos de Sistemas Centrais. No Gympass, o nome era Crossfeatures, uma brincadeira com crossfit e a necessidade de atender aos outros times da empresa. E na Conta Azul, os mais criativos com nomes, chamávamos esse time de Hubble, porque esse time ajudava a enxergar o universo Conta Azul e precisava de manutenções críticas em pleno voo para que ele se mantivesse operando.
Esses times existiam, tinham foco claro nas necessidades internas e funcionavam bem. A diferença estava no modo de operação.
Um time voltado para o interno que opera como time de produto não simplesmente recebe demandas e as implementa. Ele entende profundamente quem são suas “clientes”, as outras áreas da empresa, e conecta essas necessidades com os objetivos estratégicos do negócio. Ele faz discovery, prioriza com base em impacto, e é responsável por resultados, não só por entregas.
A pergunta certa não é “qual área esse time atende?”, mas sim “esse time tem autonomia para decidir como gerar resultado para quem atende?”
É tentador achar que a solução é simples: renomear os times. Chamar de “Time de Crescimento” em vez de “Squad de Marketing”. Mas o problema não está no nome, está na lógica de como o time foi criado e de como opera.
Um time que existe para atender a uma área interna vai continuar operando como um fazedor de funcionalidades, mesmo que você mude o nome. O que precisa mudar é a forma como os objetivos são definidos, a priorização é feita e quem é responsável pelos resultados.
Isso requer uma conversa diferente e mais difícil com as áreas internas. Requer que elas abram mão do controle sobre “o seu” time de tecnologia e passem a colaborar com um time que tem autonomia para decidir como gerar resultado.
Não é uma mudança fácil. Mas é a mudança certa.
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