Há alguns meses, o Marcelo Quintella publicou um post que chamou atenção. Depois de anos em posições de CPO e CTO, com passagens por Google, Zwift e Unico IDtech, ele havia pausado a liderança para atuar como Staff PM individual contributor na Connectly.ai, uma empresa de agentes conversacionais de IA. Queria se aproximar das mudanças que a IA estava trazendo para os times, enxergar essa transformação pelos olhos de quem está no dia a dia. A conclusão a que chegou foi que muita coisa mudou, as ferramentas são revolucionárias, mas a maior dificuldade nas empresas continua sendo a mesma. Saber o que construir.
O que mais me chamou atenção no movimento do Quintella foi a clareza com que ele o descreveu. Uma decisão deliberada de trabalhar como Contribuidor Individual (IC na sigla em inglês) para ver de perto como a IA afeta o trabalho de PMs, engenheiras e designers, antes de voltar a posições de liderança.
O Aíquis Rodrigues, co-apresentador do Papo na Arena e Senior PM na Hotmart, fez um movimento parecido. Saiu de uma posição de Group Product Manager, com times sob sua responsabilidade, para voltar a ser PM individual contributor. Um dos drivers foi o desejo de estar mais perto da IA. O outro foi um cálculo de risco explícito. A percepção de que ser middle manager nesse momento de transformação era uma posição vulnerável. Ele disse isso em voz alta no podcast, o que poucos fazem.
Em dezembro de 2025, Maikel González Baile publicou um artigo descrevendo uma decisão que havia gerado reações curiosas ao seu redor. Depois de 10 anos em cargos de gestão e 5 como CTO, ele voltou a ser IC. As pessoas reagiram com confusão e até preocupação. A resposta dele foi que não estava dando um passo atrás, estava dando um passo para dentro.
O raciocínio ressoa com o do Quintella. Maikel estava construindo produtos de IA, tomando decisões estratégicas, orientando times. Mas não estava no dia a dia, experimentando em primeira mão o que essa tecnologia pode fazer. Conseguia falar sobre embeddings e agentes, mas não estava construindo com eles. Essa distância começou a incomodar.
A carreira em produto ainda é amplamente vista como uma escada de mão única. IC, sênior, líder, diretor, VP, C-suite. Voltar a um papel mais próximo da execução parece, para muita gente, um sinal de que algo deu errado. O que esses exemplos mostram é o contrário.
A IA criou uma ruptura de ritmo diferente de tudo que vivemos antes. Uma mudança na forma como produtos são descobertos, especificados, construídos e iterados. E essa mudança está acontecendo rápido demais para ser acompanhada só de longe.
Gokul Rajaram, que passou por Google, Facebook, Square e DoorDash, tem recebido cada vez mais pedidos de referência de diretores e VPs de produto querendo fazer exatamente esse movimento. Em um podcast recente, ele disse algo que resume bem o argumento. Se você nunca trabalhou em um ambiente de IA, não será aceito como crível em uma empresa AI-native. E a maioria de nós vai trabalhar em uma empresa AI-native daqui a dez anos.
Para quem tem dez ou vinte anos de carreira pela frente, o movimento deixa de ser um recuo e passa a ser um investimento.
Gokul também fala sobre a mudança na equação de alavancagem. Um IC bem equipado com agentes de IA consegue fazer hoje o que antes exigia um time inteiro. A distância entre gestão e execução em termos de impacto diminuiu. Isso muda o cálculo de carreira de forma profunda.
Eu mesmo estou passando por algo parecido. Faz alguns meses que me juntei ao Anderson Borges, que conheço desde a época da Conta Azul, para construir produtos juntos, ele como dev, eu como produto. O mais recente é a ReveLumi, uma agente de pesquisa qualitativa via WhatsApp.
Estou aprendendo coisas que só aparecem quando você está com a mão na massa. Tomando decisões de produto com consequências diretas, em ciclos curtos, num ambiente onde a IA está presente em cada etapa do desenvolvimento. Essa proximidade muda a qualidade das perguntas que faço. E muda a qualidade das conversas que tenho com os times que oriento.
Nem todo mundo que está mais próximo da execução fez uma escolha deliberada. Há líderes que foram empurrados para um papel mais hands-on pela empresa, por necessidade do negócio, por reestruturação, por um momento de transição. E muitos carregam uma ansiedade legítima, perguntando-se se esses anos mais operacionais os vão afastar do papel de liderança estratégica que querem exercer?
A resposta depende, em boa parte, da consciência com que esse período é vivido. Quem passa por ele, observando, aprendendo e conectando o que vê na execução ao dia a dia de liderança, sai mais capaz. Por outro lado, se a pessoa passa por esse momento esperando apenas que ele passe, perde uma oportunidade rara.
A diferença entre os dois não está no cargo. Está na postura.
O Quintella voltou à consultoria e à liderança com uma convicção reforçada no Product Operating Model. O Maikel voltou com uma compreensão mais profunda de como a IA está mudando o trabalho de construção de produto. O Aíquis ainda está no meio do processo, construindo o repertório que orientará as decisões que tomará como líder mais à frente.
Gokul resume o argumento dizendo que ir para um papel IC agora, mesmo que por um período, é o que vai definir a relevância dos próximos dez a vinte anos de carreira.
Eu estou voltando a cada conversa com clientes com mais clareza sobre o que está acontecendo no desenvolvimento de produto hoje.
Líderes que passam pelo hands-on na era da IA voltam com algo difícil de adquirir de outra forma. A experiência de ter construído com as novas ferramentas, de ter sentido um ritmo diferente, de ter errado rápido e ajustado rápido.
Em um momento em que tudo muda rápido demais, a proximidade com o trabalho talvez seja uma das formas mais honestas de continuar sendo um líder relevante.
Num mundo onde a IA nivela a execução, o conhecimento profundo da sua cliente é o único ativo que o concorrente não consegue copiar. A ReveLumi foi criada exatamente para isso. Conheça em revelumi.com.
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