Vinha notando um padrão nas conversas que tenho com times de produto: quem sente a dor de não falar com cliente raramente é quem tem o budget para resolver. Resolvi testar essa intuição. Em vez de seguir achando, fui ouvir.
Rodei um meta-discovery, uma pesquisa sobre como as pessoas fazem discovery. Postei um link em alguns grupos de produto, e as conversas aconteceram de forma assíncrona, pelo WhatsApp. A primeira saiu às 11h. Poucos dias depois, eram mais de 80 conversas, sem agendar nenhuma.
Três coisas ficaram claras.
As pessoas descreveram a mesma dificuldade, de novo e de novo. Agendas que não batem. Recrutamento que se arrasta. Gente que não aparece. E-mails sem resposta.
“Muita vontade, mas é extremamente difícil isso acontecer sem trabalho de agendamento: agendar, cancelar, não aparecer, aparecer sem tempo.”
Essa foi a visão da maioria, com folga. As pessoas sabem que deveriam falar mais com usuárias. Só não conseguem, porque a operação engole o tempo.
“Não fazemos nenhum discovery contínuo. Entrevistamos as usuárias quando estamos prestes a iniciar o desenvolvimento. É corrido e sempre temos retrabalho.”
Quem sente a dor está em produto e design. Quem aprova o budget está acima.
“A demanda parte de produto e design, o ROI precisa estar muito bem provado, e daí é feito um business case que precisa ser aprovado pelo CTO, mediante ter espaço no orçamento anual.”
Uma participante de produto cravou o desalinhamento em uma frase:
“Só produto e design falam com clientes. Então só nós sentimos essa necessidade.”
E outra mostrou a consequência mais silenciosa disso. Quando quem sente a dor não enxerga uma solução, nem chega a levar o problema para a liderança:
“Não falo pela liderança. Eu mesma não levo para eles, porque não tem solução hoje.”
Quem sente a dor não é quem decide a compra. E às vezes nem leva a dor adiante.
Quando perguntamos o que mudaria com acesso contínuo e direto às usuárias, as respostas convergiram. Decisão mais rápida, menos ruído, menos retrabalho.
“Teríamos decisões mais rápidas e com menos ruído. Hoje a necessidade chega já interpretada por outras áreas, e o contexto se perde no caminho.”
O prêmio por resolver um problema operacional acaba sendo estratégico. E dá para dimensionar.
ROI operacional:
ROI estratégico:
Conversar com a cliente antes não economiza horas. Economiza o custo de uma squad inteira rodando para o lado errado, e às vezes evita o erro que você só perceberia tarde demais.
Dados dizem o quê. Clientes dizem o porquê. A razão dos times pararem no dado é que a conversa é difícil demais de ter. Remova esse atrito e o porquê volta.
Escrevi a versão completa desta história, com o método por trás das conversas e os bastidores da pesquisa, na Listen to Decide, a minha newsletter sobre como ouvir clientes para decidir melhor.
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