
Essa é a época do ano em que começamos a executar o que planejamos para o novo ano. Em alguns casos, ainda podemos estar dando os toques finais nesse planejamento ou até mesmo começando a fazer esse planejamento, já que, no final do ano, tínhamos metas a bater.
Um erro muito comum que vejo vários times de desenvolvimento de produto cometer é fazer esse planejamento começando direto na definição dos OKRs. O problema de começar dessa forma é que falta para o time o contexto estratégico para a definição dos OKRs.
Por isso uso o Playbook de Gestão de Produtos:
Nesse playbook está claro que, antes de definir os OKRs, precisamos ter clareza da visão e do propósito do produto, que é o destino aonde queremos chegar com nosso produto. É o que nosso produto será daqui a 2 a 4 anos. A estratégia é o caminho que vamos percorrer para chegar a esse destino; é o que vamos fazer para chegar lá; quais problemas vamos resolver; quais oportunidades vamos explorar. Lembrando que a estratégia não é fixa, temos que adaptá-la à medida que caminhamos e aprendemos. Em paralelo à estratégia, devemos definir a organização do time para garantir que eles tenham o que é necessário para executá-la. Com esse contexto claramente definido, os times definirão seus OKRs e farão discovery e delivery de forma contínua para atingir seus objetivos.
Ok, mas quem é responsável por cada pedaço do Playbook? Quem define a visão e o propósito? É a estratégia e a organização de times? E os OKRS, o discovery e o delivery?
Aqui está o diagrama acima atualizado com os papéis e responsabilidades:
Recentemente conheci o Paradoxo de Jevons, criado por William Stanley Jevons, um economista britânico do século XIX, que diz que:
Quando uma tecnologia torna o uso de um recurso mais eficiente, o consumo total desse recurso tende a aumentar, não a diminuir.
Para exemplificar o Paradoxo de Jevons, imagine que, ao longo dos anos, os carros passaram a ser cada vez mais eficientes, consumindo menos gasolina por quilômetro rodado. Com carros mais eficientes, a expectativa seria de que o consumo total de gasolina diminuiria. Contudo, com carros mais eficientes, ficou mais barato ter carro e, assim, mais pessoas compraram carros e o consumo total de gasolina aumentou, em vez de diminuir. Além disso, a infraestrutura para carros (postos de combustível, estacionamentos, ruas e estradas) era insuficiente para dar conta de tanto carro.
O padrão é:
Podemos aplicar esse mesmo paradoxo ao desenvolvimento de produtos. A IA está tornando cada vez mais barato desenvolver produto. Com IA está cada vez mais fácil fazer discovery e delivery de produto, e definir OKRs, mas aqui entra o risco que comentei no começo desse artigo, não podemos ir direto para OKRs, discovery e delivery se não tivermos clareza do contexto estratégico. Qual é a visão e o propósito de nosso produto? Qual é a estratégia que vamos utilizar para executar essa visão? Como vamos organizar nossos times para aumentar as chances de sucesso dessa estratégia?
Olhando o padrão do Paradoxo de Jevons:
A IA, combinada com o paradoxo de Jevons, acelera brutalmente os sintomas da falta de visão de produto. Ao tornar a experimentação, a geração de soluções e a execução muito mais baratas e rápidas, a IA não cria um problema. Ao contrário, torna o desenvolvimento de produtos muito mais eficiente e veloz.
Contudo, a IA e o paradoxo de Jevons podem escancarar sintomas da falta de visão que já estavam lá: a fábrica de features, o desalinhamento entre times e os produtos sem identidade clara. Sem um norte compartilhado, a queda do custo de “fazer” leva ao aumento do volume de iniciativas desconectadas, a narrativas fragmentadas entre áreas e à diluição acelerada da proposta de valor no mercado. A eficiência cresce, mas o valor não acompanha.
Para mitigar esse risco, a liderança e as founders precisam definir e comunicar com clareza o contexto estratégico, por meio de uma visão e de uma estratégia de produto bem estabelecidas, além de uma organização de times coerente com esse direcionamento.
A IA faz os times irem mais rápido. A visão garante que eles estão indo para o lugar certo.
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Na Gyaco, acreditamos no poder das conversas para promover reflexão e aprendizado. Por isso, temos dois podcasts que exploram o universo de gestão de produtos por ângulos diferentes:
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