3 lições de transformação digital da Disney

Os resultados do segundo trimestre de 2022 da Netflix e da Disney mostraram a Disney com mais assinantes de streaming do que a Netflix. O gráfico abaixo mostra como os números evoluíram até esse incrível marco:

Número de assinantes da Disney e Netflix (fonte: EEAGLI)

Este é um caso interessante de uma empresa incumbente, a Disney, sendo capaz de enfrentar a concorrência de uma empresa de tecnologia disruptiva, a Netflix.

Durante minha carreira, e principalmente durante meus anos liderando iniciativas digitais no Gympass e na Lopes, tenho aprendido sobre o poder do digital para potencializar os resultados de uma empresa. Quando soube dos resultados da Disney em comparação com a Netflix, quis verificar se meus aprendizados se aplicam a essa situação, e parece que sim.

Lição 1: o produto digital não está no centro

Existem 3 tipos de empresas, como expliquei neste artigo, e resumo abaixo:

  • Digital: O produto vendido pela empresa é o software ou tecnologia desenvolvida pela equipe de desenvolvimento do produto. Locaweb, Conta Azul, AWS, Gmail, Instagram, etc.
  • Tradicional: O produto ou serviço vendido pela empresa provavelmente existe há muitos anos sem a tecnologia, mas a empresa está começando a entender como a tecnologia pode potencializar esse produto ou serviço que existe há vários anos. Bancos, companhias aéreas, empresas de mídia, etc.
  • Tradicional nascido digital: o produto vendido pela empresa poderia existir sem a tecnologia, mas a tecnologia aprimora muito o produto. Netflix, Youtube, Amazon, Nubank, etc.

Ao analisar Disney e Netflix estamos comparando empresas de 2 tipos diferentes, Disney como empresa tradicional e Netflix como tradicional nascida digital. Para esses tipos de empresas, a tecnologia e o produto digital não são o core business. São potencializadores do core business. Então, quando discutimos a transformação digital, precisamos ter especialistas em negócios junto com especialistas em tecnologia trabalhando juntos para descobrir como usar a tecnologia para potencializar o negócio. Não é tecnologia subordinada ao negócio, nem negócio subordinado à tecnologia. É uma colaboração.

Algumas empresas tradicionais erram ao querer colocar a TI subordinada ao negócio, o que já demonstrei em outro artigo que não funciona. Por outro lado, algumas empresas tradicionais nascidas digitais podem pensar que tecnologia é mais importante do que negócios, o que também é errado, e nos leva à lição 2.

Lição 2: a experiência do core business é tão importante quanto a experiência em tecnologia

A tecnologia é muito importante. Pode mudar a forma como fazemos negócios. Pode até “disruptar” a forma como fazemos negócios. A Blockbuster, que já foi líder em locação de vídeos, teve como uma das principais causas de sua falência a Netflix, uma empresa tradicional nascida digital.

Receita da Netflix e da Blockbuster entre 1998 e 2016

No entanto, a tecnologia por si só não é suficiente. Uma compreensão profunda do negócio também é necessária.

A Lopes é a maior imobiliária do Brasil, empresa fundada em 1935 que fez uma oferta de follow-on na bolsa de valores no final de 2019 para arrecadar fundos para investir em sua transformação digital. Trabalhei na Lopes entre 2020 e 2022 liderando essa transformação digital e aprendendo muito nessa jornada. A Lopes é uma empresa tradicional, e está enfrentando a concorrência de 2 empresas tradicionais nascidas digitais muito bem financiadas chamadas QuintoAndar e Loft. Lopes tem muita experiência no mercado imobiliário. Tanto o QuintoAndar quanto a Loft tiveram que adquirir essa experiência. Ambos adquiriram empresas imobiliárias muito tradicionais para ganhar essa experiência no mercado imobiliário.

A Disney foi fundada em 1923 e tem MUITA experiência no mercado de mídia e entretenimento. Ter a capacidade de combinar essa experiência de negócios com experiência em tecnologia é um caminho certo para bons resultados, como foi para a Disney em seus esforços de streaming.

Lição 3: investimento em tecnologia leva tempo (e custa muito)

O investimento em tecnologia leva tempo, devido à incerteza tecnológica, como expliquei neste artigo com exemplos da Amazon e Nubank. Tanto a Amazon quanto o Nubank são empresas tradicionais nascidas digitais e entendem que investir em tecnologia leva tempo.

Para as empresas tradicionais é um pouco mais difícil aguentar tanto tempo investindo sem ter resultados claros. Essa incerteza deixa as pessoas de empresas tradicionais desconfortáveis, o que é natural. Para lidar com essa incerteza, as pessoas das empresas tradicionais precisam de sinais de que o investimento em tecnologia – que não é baixo – vai gerar resultados no longo prazo.

A Disney parece estar investindo em tecnologia de internet há algum tempo. Desde seu primeiro site em 1996:

O primeiro site da Disney, de 1996 (fonte: webarchive)

Em 1999, a Disney adquiriu a Infoseek, uma ferramenta de busca, e a Starwave, uma produtora de conteúdo para web, e começou a adquirir algum conhecimento sobre internet. Em 2015, a Disney lançou um serviço de streaming no Reino Unido chamado DisneyLife para testar o mercado de streaming. Durante 2016 e 2017, adquiriu a BAMTech, uma empresa de tecnologia de streaming. A ESPN, empresa adquirida pela Disney em 1996, lançou o ESPN+, um serviço de streaming, em 2018. A Disney adquiriu o Hulu, outro serviço de streaming, em 2019. Então, em novembro de 2019, foi lançado o Disney+ e, 2,5 anos depois, a Disney foi capaz de ter mais assinantes do que a Netflix em seus 3 serviços de streaming (Disney+, Hulu e ESPN+). Pode parecer uma empreitada de 2,5 anos, mas se considerarmos que a Disney investe em digital e internet desde 1996, são mais de 25 anos!!! E custa muito, só a aquisição da BAMTech foi de US$ 2,58 bilhões, fora todas as outras aquisições, salários e investimentos em infra-estrutura e ferramentas.

Resumindo

  • O recente relatório de resultados da Disney mostrou um número de assinantes de streaming maior que o da Netflix. Um caso interessante de um incumbente ser capaz de enfrentar a concorrência de uma empresa de tecnologia disruptiva, o que nos mostra algumas lições interessantes sobre transformação digital:
  • Lição 1: o produto digital não está no centro.
  • Lição 2: a experiência do core business é tão importante quanto a experiência em tecnologia.
  • Lição 3: investimento em tecnologia leva tempo (e custa muito).

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2 thoughts on “3 lições de transformação digital da Disney

  1. Artigo excelente! Parabéns
    Só destacaria que o investimento da Netflix gerou um app muito superior aos concorrentes.

  2. Sim, sem dúvida o app deles é muito bom, bem melhor que dos concorrentes, mas só isso não é suficiente. É preciso conteúdo, pois assinamos uma plataforma de streaming pelas séries e vídeos que queremos ver, e não pelo app. Só depois descobrimos se o app é o bom.

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