Toda semana aparece alguém anunciando o fim de uma função. O fim da gestora de produto. O fim da designer. O fim da engenheira. Afinal, todos os dias surgem ferramentas de IA que substituem várias tarefas dessas funções, como discovery, prototipação e programação.
Mas afinal, o que é uma função?
É muito comum descrevermos uma função a partir das suas tarefas do dia a dia. Contudo, essa não é a forma mais efetiva, pois as tarefas podem mudar com o surgimento de novas técnicas (Agile, TDD, etc.), novas tecnologias (internet, mobile, IA, etc.) e novas ferramentas (Hotjar, Figma, Cursor, etc.).
A maneira mais efetiva de se descrever uma função é pela sua missão, seu propósito, seu objetivo, e não pelas suas tarefas.
Por exemplo, uma pessoa CEO tem por missão liderar a estratégia e a visão de longo prazo de sua organização, e ela faz isso por meio de várias tarefas tais como definir e comunicar visão e estratégia, contratar e liderar pessoas, estabelecer e cultivar a cultura organizacional, participar de reuniões, enviar emails, visitar clientes e assim por diante. As tarefas mudam com o tempo. A missão permanece.
Quando olhamos para o time de desenvolvimento de produtos, temos três funções essenciais.
Cada uma dessas missões é uma responsabilidade por perguntas que alguém precisa responder, e essas perguntas não desaparecem quando a ferramenta muda. Por isso, nenhuma tecnologia elimina essas funções.
O que a tecnologia muda, e a IA está mudando de forma acelerada, é o custo de cada etapa do caminho. Prototipar ficou barato. Implementar ficou barato. Qualquer pessoa do time consegue levantar uma versão funcional de uma ideia em horas. O gargalo migrou da construção pra decisão. Com dezenas de explorações acontecendo em paralelo, alguém precisa decidir o que merece virar produto, como as partes se encaixam num todo coerente e o que descartar. As perguntas continuam as mesmas. O que mudou foi onde as pessoas que respondem por elas investem seu tempo.
Isso também explica por que “vamos acabar com a função X” costuma ser um erro. Quando uma empresa elimina a função, a missão continua lá. A pergunta segue precisando de resposta, agora sem ninguém responsável por ela. E junto da função, a empresa abandona a disciplina acumulada daquela função, as práticas que já foram testadas, os erros que já foram cometidos e aprendidos.
O resultado da morte de uma ou mais dessas funções costuma ser o retorno de um velho conhecido, a fábrica de funcionalidades, aquele modo de operar em que o time entrega funcionalidade atrás de funcionalidade sem que ninguém pergunte se elas deveriam existir.
As fronteiras entre as funções, essas sim, estão ficando mais porosas. Uma gestora de produto que prototipa, uma designer que escreve código, uma engenheira que conversa com clientes. Isso é bem-vindo, pois faz o time ficar mais coeso e as ferramentas de IA têm acelerado essa coesão. Mas “fronteiras porosas” é diferente de “missão abandonada”. Cada pessoa pode transitar entre as três missões, desde que haja sempre alguém responsável por cada uma delas.
Em 2025, experimentei muito com ferramentas de vibe coding. Eu dizia que havia voltado a programar! Fiz um app de ToDo e depois uma astróloga virtual com interface conversacional via web. Estava cobrindo as três missões. No final do ano passado, em conversa com o Anderson Borges, com quem eu já tinha trabalhado na Conta Azul, ele como CTO e eu como CPO, resolvemos juntar forças para explorar esse momento tão disruptivo que estamos vivendo no mundo do desenvolvimento de produtos graças às várias ferramentas de IA que estão aparecendo.
Apesar de eu ser formado em Engenharia da Computação e ter programado muito no meu início de carreira, acabei me focando mais em gestão de produtos, com foco na missão de criar produtos que resolvem problemas das pessoas de forma correta enquanto geram resultados para as empresas. Já o Anderson sempre se focou em engenharia e liderança de times de engenharia, com a missão de construir produtos que funcionem, escalem e consigam evoluir.
Foi com essa divisão clara das três missões que evoluímos a astróloga virtual via web para uma astróloga virtual via WhatsApp e, depois, criamos a ReveLumi, uma agente de pesquisa via WhatsApp capaz de realizar pesquisas qualitativas de forma autônoma.
As três missões continuam existindo, independentemente de ser uma única pessoa, como quando eu comecei a explorar vibe coding, ou agora na ReveLumi, onde Anderson e eu estamos dividindo as três missões. Com o Anderson cuidando da missão de engenharia e dividindo a missão de design comigo, isso me libera para eu me aprofundar na missão de gestão de produto.
As ferramentas mudam a forma como trabalhamos. Mas enquanto existir produto pra construir, as três missões continuarão existindo e terão que ser cumpridas. Garantir que o time construa o que gera resultados. Garantir que a solução resolva o problema da forma certa pra quem usa. E garantir que a solução funcione, escale e consiga evoluir.
Num mundo onde a IA nivela a execução, o conhecimento profundo da sua cliente é o único ativo que o concorrente não consegue copiar. A ReveLumi foi criada exatamente para isso. Conheça em revelumi.com.
A Netflix sabe tudo sobre a gente. E a gente não acha o que assistir.
Esse é o tema da semana na minha nova newsletter, Listen to Decide, onde falo sobre a importância de ouvir clientes, técnicas para fazer isso melhor e o que estamos aprendendo enquanto construímos a ReveLumi. Tudo com um objetivo: tomar decisões melhores a partir de conversas reais.
Ajudo empresas e lideranças (CPOs, heads de produto, CTOs, CEOs, tech founders e heads de transformação digital) a conectar negócios e tecnologia por meio de treinamentos e consultoria focados em gestão de produtos e transformação digital.
Na Gyaco, acreditamos no poder das conversas para promover reflexão e aprendizado. Por isso, temos o podcast Produto em Pauta, com episódios toda quinta-feira.
A série principal é Mentorias: conversas com profissionais de produto, partindo da ideia de que as perguntas de uma pessoa muitas vezes são as perguntas de muitas outras. Exploramos desafios concretos e transformamos experiência em aprendizados práticos que você pode aplicar no seu próprio contexto.
Disponível no YouTube e no Spotify. Gravado em português e, no YouTube, com legendas em inglês.
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