
Conheço Marty Cagan desde 2007. Nessa época eu estava na Locaweb, buscando como outras empresas resolviam seus problemas no desenvolvimento de produtos. Durante essas buscas, encontrei o blog da SVPG e fiquei impressionado com a precisão com que o Marty descrevia as situações que vivíamos na Locaweb. Parecia que ele tinha uma câmera escondida! Resolvi então mandar-lhe uma mensagem e acabamos trazendo o Marty, pela primeira vez, ao Brasil, para nos ajudar a melhorar o desenvolvimento de nossos produtos. Desde então, mantenho conversas periódicas com Marty sobre o que é preciso para construir produtos melhores, que resolvem os problemas das clientes por meio de tecnologia, enquanto geram resultados para a empresa.
Em agosto de 2020, me juntei à Lopes, a maior imobiliária do país, fundada em 1935, para ajudá-la na transformação digital, que tinha por objetivo enfrentar a competição de duas startups muito bem capitalizadas, a Loft e o QuintoAndar. Me lembro de ter conversado com Marty sobre esse desafio, e ele comentou que, em empresas tradicionais que buscavam a transformação, era necessário mudar a forma como os produtos eram construídos.
Essa mudança na forma de construir produtos era algo que eu já tinha vivido no Gympass. Ao me juntar à empresa em 2018, ela já contava com 800 funcionários em 14 países, mas o time de desenvolvimento de produto (engenharia, design, product management e dados) tinha apenas 32 pessoas e operava recebendo pedidos dos times comerciais e de operações. Ao longo de dois anos, evoluímos nossa forma de fazer produtos, o que foi essencial quando nos deparamos com a pandemia. Estávamos trabalhando há 2 meses na PoC do Gympass Wellness, um marketplace de apps para que nossos usuários pudessem praticar atividade física e meditação e cuidar de sua nutrição em casa, o que foi uma ótima solução para nossas clientes B2B cujos funcionários estavam em lockdown. Outro prioridade no início da pandemia era ajudar as academias, que tiveram que fechar suas portas, a sobreviverem àquela restrição. Em duas semanas, desenvolvemos o Gympass Live Classes, aulas ao vivo transmitidas pelas academias parceiras. Era bom para as academias que continuariam operando e para nossos usuários, que poderiam ter uma experiência de aula ao vivo. Tudo isso só foi possível porque evoluímos em muito nossa forma de fazer produtos.
Tendo experimentado essa mudança na forma de fazer produto no Gympass, quando cheguei na Lopes, percebi que os problemas eram os mesmos e que eu precisava, mais uma vez, liderar uma transformação na forma de construir produtos. Foi nesse momento que percebi a necessidade de tornar explícita a cultura de produto da Lopes. Definimos no final de 2020 os quatro princípios que iam nos guiar:
Eram os princípios que usávamos de forma intuitiva no Gympass e intencionalmente na Lopes. Essas experiências acabaram dando origem ao meu quarto livro, “Transformação Digital e Cultura de Produto: Como colocar a tecnologia no centro da estratégia de sua empresa“, pois ficou claro para mim que não dá para fazer uma transformação digital se não mudarmos a forma de fazer produto. E a forma como fazemos produto nada mais é do que a Cultura de Produto que praticamos no dia a dia.
Em 2022, Marty começou a falar mais sobre o Modelo de Operação de Produto (Product Operating Model), que é o modo como as melhores empresas de produto trabalham. O que ele percebeu ao longo de muitos anos de consultoria e aconselhamento é que as empresas precisam:
Quando coloquei lado a lado o Modelo de Operação de Produto e o que eu vinha chamando de Cultura de Produto, percebi algo interessante: ambas descreviam a mesma transformação, quase nos mesmos termos, mas com formatos um pouco diferentes.
Enquanto o Modelo de Operação de Produto deixa claro que as empresas precisam mudar em 3 aspectos (como constroem, como resolvem problemas e como decidem quais problemas resolver), a Cultura de Produto explicita o que precisa ser feito (entregas rápidas e frequentes, foco no problema, entrega de resultado e mentalidade de ecossistema).
Mas, no fim, ambas falam da mesma coisa: a forma como os times pensam e trabalham para entregar valor.
Se observarmos com atenção, é possível traçar um paralelo direto entre as dimensões do Modelo de Operação de Produto e os princípios da Cultura de Produto:
| Modelo de Operação de Produto | Cultura de Produto | O que é preciso fazer |
|---|---|---|
| Como produtos são construídos | Entregas rápidas e frequentes | Ciclos curtos, experimentação contínua, menos apostas grandes, mais aprendizado real e frequente. |
| Como problemas são resolvidos | Foco no problema | Liderança define o problema e o propósito; times têm autonomia para descobrir a melhor solução. |
| Decidir que problemas resolver | Entrega de resultado | Priorizar pelo impacto: o que muda comportamento da cliente e gera resultado do negócio. |
As três dimensões do Modelo de Operação de Produto se refletem diretamente em três dos princípios da Cultura de Produto. O quarto princípio, Mentalidade de Ecossistema, aparece nas histórias, nos exemplos e nas consequências, mas não como princípio declarado no Modelo de Operação de Produto.
É como acontece na ciência quando duas pesquisadoras, observando o mesmo fenômeno, chegam às mesmas leis fundamentais por métodos diferentes. Eu cheguei à Cultura de Produto pela prática de transformar empresas por dentro. Marty chegou ao Modelo de Operação de Produto ao observar padrões repetidos nas melhores empresas de produto do mundo.
O fenômeno é o mesmo. A conclusão é a mesma. As palavras é que são diferentes.
E essa é, talvez, a parte mais interessante: quando pessoas diferentes, em contextos diferentes, chegam à mesma conclusão, é porque estamos olhando para algo estrutural, algo que não depende de moda, ferramenta ou framework.
Significa que estamos, de fato, descrevendo a nova lógica predominante de como produtos digitais são construídos no século XXI.
Chamar de Modelo de Operação de Produto ou de Cultura de Produto é uma questão de preferência, estilo e referência. O importante é o que está por trás:
No fim, estamos descrevendo a mesma transformação.
E ela não é opcional para empresas que querem continuar relevantes.
Ajudo empresas e lideranças (CPOs, heads de produto, CTOs, CEOs, tech founders e heads de transformação digital) a conectar negócios e tecnologia por meio de treinamentos e consultoria focados em gestão de produtos e transformação digital.
Na Gyaco, acreditamos no poder das conversas para promover reflexão e aprendizado. Por isso, temos três podcasts que exploram o universo de gestão de produtos por ângulos diferentes:
Você trabalha com produtos digitais? Quer aumentar as chances de sucesso do seu produto, resolver os problemas das usuárias e atingir os objetivos da empresa? Conheça meus livros, onde compartilho o que aprendi ao longo de mais de 30 anos criando e gerenciando produtos digitais:
