Agora que já vimos os conceitos, os princípios e as ferramentas necessárias para aumentar as chances de sucesso de sua jornada de transformação digital, neste último capítulo desta parte do livro vou falar sobre duas ferramentas que podem ser essenciais para empresas que estão enfrentando concorrência de startups de tecnologia. São ferramentas que, se bem gerenciadas, aumentam consideravelmente sua competitividade e o potencial de sucesso de sua jornada digital.
Existem várias histórias sobre empresas tradicionais sendo atropeladas pelas startups com suas novas tecnologia e o novo jeito de fazer negócios, muitas vezes disrompendo completamente o modelo de negócios atual e o mercado da incumbente. Um dos cases mais conhecidos é o da Netflix e da Blockbuster. Em um período de pouco mais de 10 anos, a Netflix levou a Blockbuster à falência:
Por outro lado, a Disney, outra empresa de mídia e entretenimento, foi capaz de enfrentar a concorrência da Netflix:
As incumbentes têm duas ferramentas com grande potencial de ajudá-las a enfrentar as startups de tecnologia que entram no mercado causando disrupções. Digo que têm potencial porque, como qualquer aspecto do negócio, essas duas ferramentas que vou comentar, se não forem bem utilizadas e gerenciadas, não serão pontos fortes e podem até se tornar desvantagens. Vamos a elas.
Por estarem há muito tempo no mercado, as incumbentes têm e geram uma enorme quantidade de dados se comparadas com as startups. Para dar uma ideia da diferença em volume, com base em dados divulgados pela Loft sobre seus números de 2020, a quantidade total de vendas da Loft em um ano é o equivalente ao total de vendas da Lopes em 10 dias.
Essa é uma vantagem muito grande: ter e gerar mais dados permite conhecer muito bem o cliente e o negócio e, consequentemente, tomar melhores decisões e criar melhores serviços.
Na Lopes, costumávamos dizer que estávamos indo além da transformação digital, empenhados em fazer uma transformação baseada em dados e em inteligência artificial. Entendendo esse potencial enorme de nossa base de dados, que não só era grande, mas estava se atualizando com novos dados em uma velocidade muito rápida, decidimos em 2021 fazer um forte investimento em criar uma cultura orientada a dados. Tínhamos um time que chamávamos de Big Data que estava organizado em três funções: engenharia de dados, para criar e gerenciar a infraestrutura e ferramentas para gestão dos dados; análise de dados, para criação e gerenciamento de relatório; e a ciência de dados, para buscar padrões e insights a partir de nossos dados.
Junto a esse time Big Data tínhamos uma gestora de produtos de dados. Esse time criou e liderou várias iniciativas para nos ajudar a atingir o objetivo de criarmos uma forte cultura de dados em toda a empresa e explorarmos esse ponto forte que tínhamos:
Por outro lado, a startup pode crescer e ficar do mesmo tamanho ou até maior que a incumbente, como aconteceu com Netflix e Blockbuster. Aqui no Brasil temos o caso do Nubank, que, pelos dados do Banco Central, já ocupa a posição de 4o maior banco do Brasil em quantidade de clientes em ranking do 2o trimestre de 2023.
As empresas incumbentes têm muito conhecimento sobre o domínio, sobre o mercado onde estão e sobre como fazer negócios nesse mercado. Por exemplo, a Disney foi fundada em 1923 e tem MUITA experiência no mercado de mídia e entretenimento. Ter a capacidade de combinar essa experiência de negócios com experiência em tecnologia é um caminho certo para bons resultados, como foi para a Disney em seus esforços de streaming.
A Lopes foi fundada em 1935 e está enfrentando a concorrência de duas empresas tradicionais nascidas digitais muito bem financiadas, QuintoAndar e Loft. A Lopes tem muita experiência no mercado imobiliário, são mais de 85 anos intermediando compra, venda e aluguel de imóveis em todo o Brasil. Tanto o QuintoAndar quanto a Loft tiveram que adquirir essa experiência no mercado imobiliário. Em 2021, o QuintoAndar adquiriu a Casa Mineira, imobiliária bastante conhecida de Belo Horizonte, e a Loft adquiriu, também em 2021, a Foxter, imobiliária bem relevante de Porto Alegre. Em 2023, o QuintoAndar fez uma parceria comercial com a Lopes na qual as duas empresas passaram a compartilhar a carteira de imóveis para venda e locação.
Por outro lado, esse profundo conhecimento do domínio pode gerar uma certa arrogância na incumbente, ao ponto de a deixar cega às oportunidades que a tecnologia oferece. A Blockbuster nasceu em 1985 explorando o nascente mercado de aluguel de filmes em fitas de vídeo. No final da década de 1990, ela era a líder absoluta desse mercado. Em 2000, os fundadores da Netflix bateram na porta da Blockbuster com uma oferta para serem adquiridos por U$ 50 milhões, oferta esta que a Blockbuster recusou. E deu no que deu: hoje a Blockbuster não existe mais.
Se você souber tirar proveito dessas duas ferramentas, dados e conhecimento de domínio, elas poderão ajudar muito a enfrentar a competição das startups, que chegam ao seu mercado cheias de inovação e às vezes cheias de dinheiro de fundos de investimento.
Para aproveitar ao máximo essas ferramentas, é fundamental mudar a forma como as pessoas da sua empresa operam. Ao longo deste livro, vimos conceitos, princípios e ferramentas que ajudam a aumentar as chances de sucesso ao longo de sua jornada de transformação digital.
Os conceitos e as ferramentas são muito importantes, mas se não soubermos por que eles são importantes, nossa jornada de transformação digital será difícil. Para extrair o máximo desses conceitos e ferramentas que foram apresentados ao longo deste livro, e de outros conceitos e ferramentas que você talvez você já conheça ou que virão daqui para a frente, é preciso não só conhecer, mas também praticar constantemente os quatro princípios de uma cultura de produto digital, que são os comportamentos necessários para ajudar a criar produtos de sucesso:
Com esses princípios, você criará uma cultura de produto que potencializará a jornada de digitalização da sua empresa. Essa cultura de produto é o que vai ajudar a sua empresa a tirar maior proveito dos dois pontos fortes descritos neste capítulo.
Esse artigo é mais um trecho do meu livro mais recente “Transformação digital e cultura de produto: Como colocar a tecnologia no centro da estratégia da sua empresa“, que vou também disponibilizar aqui no blog. Até o momento, já publiquei por aqui:
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